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É hora de voltar para os pólos

Regionalização do turismo?
É hora de esquecer esta bobagem e voltar a pensar em “pólos turísticos”.

Mais de dez anos depois que o governo federal despejou alguns bilhões de reais, uma fortuna, na formação de um ministério exclusivo, no planejamento, estudos, marketing, ONGs e CCs mil, conseguiu apenas alguns escândalos e pouco ou nenhum resultado.

Algumas equipes com tendências políticas e “tecnológicas” diversas passaram pelos governos, tanto federal como estaduais, porém, em nenhum deles o turismo foi considerado um vetor de desenvolvimento ou teve incorporada uma política de estado, ficou ao sabor das vontades momentâneas e foi apenas uma moeda de troca entre partidos e correntes. Só por isso não sumiu do quadro de ministérios, secretarias em muitos estados e municípios.

Destinos são cidades
Enquanto isso, o turismo como negócio vai bem obrigado em alguns lugares. Ou melhor, em algumas cidades. O Rio Grande do Sul tem três sucessos de público no turismo: Gramado, Bento Gonçalves e Porto Alegre.

O primeiro, Gramado, tornou-se objeto de desejo de 7 em cada dez brasileiros por sua mesa farta e variada, suas ruas que mais parecem jardins, seu estilo arquitetônico e seus eventos criativos, tanto profissionais, como religiosos, artísticos e/ou histórico-culturais. Gramado é TOP TEN de qualidade de vida e TOP ONE em economia do turismo do país. O segredo todos sabem, mas, poucos conseguem praticar: o planejamento eficaz e a promoção constante da cidade.

O segundo, a cidade de Bento Gonçalves tem no vinho sua marca e poder de atração, mesmo que a indústria fale mais alto em arrecadação de impostos, isso só interessa ao governo, que não produz, e vive apenas do que arrecada. Do ponto de vista empresarial, a cadeia do acolhimento e da hospitalidade está eufórica, pois, a cidade ganha prêmios e bate recordes com a atividade. TOP ONE de qualidade de vida do estado, já figura entre os destinos mais desejados do país, pelo público que quer provar seus vinhos premiados e apreciar a vida tranquila e o visual exuberante de parreirais sem fim, em vales deslumbrantes.

O terceiro, “Porto Alegre não tem turismo” é a frase que eu sempre ouvi desde que aterrissei a primeira vez para falar disso no RS e depois de dar uma olhada mais a fundo descobrimos que é verdade: “não tem turismo, mesmo! ” O fato de mais de um milhão de pessoas chegarem na cidade todos os anos para dormir e comer, não garante que isso seja turismo, porém, tem um dado curioso: uma pesquisa mostrou que algo perto de 14% dos que estavam nos hotéis hospedados, vieram para a cidade com a finalidade de fazer turismo, ou seja, passear. Algum idiota poderá até dizer que eles, “visitantes pernoitador”, vieram para ver jogo de futebol, para ver show de Rock, ou para uma noitada em uma das excelentes casas noturnas, ou ainda para fazer um curso ou um tratamento de saúde. Além disso, mais de mil eventos encheram salas de hotéis, universidades e centros de convenções na capital, isto somado, manda esta cifra dos “não negociantes” para mais de 30% da ocupação dos hotéis e troca a cor do gráfico-tipo dos desembarques no Aeroporto Salgado Filho. Isto é tanto turismo como alguns países mundo a fora não conseguiriam ostentar: mais de trezentos mil turistas por ano! Então, os que não gostam ou não admitem, podem dar o nome que quiserem para este movimento, mas, é turismo. Os outros mais de um milhão são “durmistas”, “compristas”, “trabalhadores expatriados” e “negociantes”.

Repensando

Em cima disso, alguem pode perguntar: quem inventou este caminho de “regionalização”. Não sei. Mas, a certeza é que foi alguem que nunca esfregou o umbigo no balcão de um hotel, nunca fez uma reserva, emitiu um bilhete ou preencheu um voucher – tambem não deve ter ido à escola. A regionalização deveria ser uma ferramenta de planejamento e o “produto de prateleira” deveria ser um roteiro. A destinação do turista é outra coisa. Este negócio complexo, que envolve planejar, produzir, embalar e vender, cada etapa com um formato diferente, facilmente compreensível para quem é verdadeiramente do ramo, poderia ser melhor deglutido se nos postos-chave fossem colocadas pessoas que entendessem turismo como negócio e não inventasse expressões esquisitas para justificar suas ignorâncias, com termos tipo “turismo de negócios”. Ouvi de um ex-jovem presidente de estatal um lamento em forma de ironia: “tem muito comunicador no turismo”. Ao perguntar se ele estava denegrindo a profissão de jornalista, ele explicou: “não! O que ocorre é que no turismo se fala demais e se produz de menos”. Ele queria dizer: “se comunica bem e se produz mal” ou “se fala muito sem dizer nada”. Obrigado pela explicação, mas, ele também não mentiria se dissesse que no turismo tem curioso demais e profissionais de menos, ou ainda, têm teóricos demais e pragmáticos de menos.

E mais: um jornalista de turismo de verdade detectou uma característica em um político gaúcho encastelado no turismo, que é uma pérola, a qual ele me mandou pelo WhatsApp e compartilho aqui por achá-la muito pertinente: “estou maravilhado com o discurso do secretário! Serve para inauguração de viaduto, abertura de kermesse, lançamento de marca de vacina contra febre aftosa, ou recepção de refugiados da guerra. Um discurso multiuso. Palmas!”.

Ainda hoje tem gente envergando brilhantes crachás de especialista em turismo que traduz do português para o inglês, na esperança de ser lido lá fora: “Destino = destiny”. Tira-me o tubo!

Fracasso

O fracasso do modelo da regionalização produziu uma casta de “bidus” que entendem tudo de turismo e nada de economia de turismo. Levando o resumo da ópera para um setor sem expressão em forma de PIB e sem representatividade, tanto política como setorial. Por isso, turismo como negócio – como qualquer outro tipo de negócio – precisa ter foco e resultado, e para isso, juntando as potencialidades e os interesses se criam pólos de desenvolvimento e não se dispersam em reuniões intermináveis e planos inexeqüíveis, discutindo mapas incompreensíveis e caminhos impraticáveis, além de nunca sintonizar cabeças que pensam suas sentenças, cada uma do seu jeito.

O turismo brasileiro como política fracassou. O turismo como negócio no país e no Estado fracassou, e eles, sem declarar, desistiram. Mas o mercado não fracassou de todo – se como rotas, roteiros e bobajadas do gênero – não foi a lugar nenhum, como produto, não desistiu. O fracasso dói, mas, é temporário. A desistência é definitiva, mata. Se os governos “desistissem de desistir”, deveriam investir em mais dúzia de potenciais pólos de turismo, específicos por segmento. Só precisará retreinar o pessoal e aceitar que o resto, serão “roteiros”.

Ah! E lembrar que Turismo é sempre “negócio”!

Texto: José Justo

José Justo, 62, viveu no Rio de Janeiro na infância e adolescência, em São Paulo por 15 anos (com pequenos períodos fora do Brasil) e Gramado, onde reside até hoje. Lidera o IN-PACT – Instituto de Pesquisa e Análise Conceitual em Turismo – com projetos na Região das Hortênsias, em Porto Alegre, Torres, Florianópolis, São Paulo e Espírito Santo e Lisboa. Estudou Engenharia Eletrônica na Universidade Mackenzie de São Paulo e extensão em Planejamento na Fundação Brasileira de Marketing. Trabalhou entre os anos de 1972 e 1987 na VARIG – empresa aérea comercial – CONTROL DATA – fabricante americana de mega computadores – e CNEC – escritório de engenharia do grupo Camargo Corrêa. Dedica-se aos segmentos de turismo e hotelaria desde 1985. No período de 2007 a 2010, criou o master plan do projeto Gigante para Sempre, do Sport Club Internacional, que conquistou a participação da cidade de Porto Alegre na Copa do Mundo de Futebol FIFA 2014. Atualmente é Diretor de Planejamento Estratégico e Coordenador Executivo da Associação Brasileira de Hotéis no RS, editor do boletim multimídia FRONTDESK – focado em assuntos de Motivação, Eventos, Hotelaria e Turismo e mantém uma coluna regular na Revista Hotelaria do Sul desde 2005.