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O beijo do desespero

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Foto: Divulgação

Há um ano a maior tragédia gaúcha acontecia. Era um sábado à noite quando a diversão iria alegrar e entreter centenas de jovens. Se divertiriam, mas só até uma determinada hora. A notícia no domingo, da segunda e de toda a primeira semana seguinte chocava cada vez mais. Depois do impacto, quantas perguntas sem respostas? Muitas! As dores? Sem forma de acalentá-las. As manchetes de jornais, revistas, TVs, rádios. “Quando o Brasil vai aprender?”, “Tão jovens, tão rápido e tão absurdo”, “O futuro roubado”. Foram manchetes, nos veículos de comunicação, que eu deveria ter recusado ouvir ou de ler, mas não, li muitas histórias como se, ao ler, eu pudesse aliviar a dor na condição de mãe.

Não, não sou mãe de nenhuma vítima, mas sou mãe de todos, afinal somos mães de todos, porque votamos, porque escolhemos nossos representantes, porque às vezes escolhemos pelos nossos pequenos, que tão pequeninos não conseguem se defender. Os primeiros passos nós somos que trilhamos para eles. E não tem como não dizer que o Estado e o município estão ilesos a esta tragédia, que são os “fandangueiros”, os donos da Kiss, somente, os governos também tem a sua parcela de culpa, mas quem são os responsáveis maiores?  É entre tantas questões importantes uma metáfora vem a minha mente. Boate x escolas brasileiras. Na primeira delas, os jovens perdem a vida ao inalar um gás venenoso e, na outra, as crianças perdem o futuro por não inalar o oxigênio do conhecimento. A imprudência dos envolvidos diretamente levou à morte por falta de ar. Já os políticos, pais e eleitores, levam à vida das crianças arruinadas por falta de educação.

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Esta falta de educação não mata rapidamente e nem tão pouco diretamente, mas mata, minuto a minuto, muitas vidas. Todos os dias, estamos vendo nos veículos de comunicação várias noticias, que são as mais absurdas possíveis, e me parece que estamos nos acostumando com o que nos embrutece. Ou será que só vemos a pobreza depois de uma nuvem de fumaça e de muitos gritos?

Choramos pela tragédia humana de Santa Maria, mas não choramos pelo futuro das crianças que não vão receber educação necessária para serem de fato cidadãos  que possam enfrentar um mundo mais humano. Nós choramos pelos mortos que respiram aquele ar irrespirável, mas precisamos chorar com antecedência ou, quem sabe, nos envergonhar pelos que não vão receber o ar do conhecimento.

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Fecham-se boates por insegurança, mas levamos confiantemente as crianças para as escolas que não asseguram o seu futuro. Exigimos portas de emergências, mas não exigimos que as escolas sejam a garantia do futuro. O nome da boate Kiss parece uma metáfora, pois foi, sim, o beijo do desespero e o último beijo.

E as escolas, será que podemos dar o beijo da prosperidade? Em algumas escolas podemos esperar esta prosperidade,  em outras, só vamos lamentar, porque por lá só vai acontecer o beijo do despreparo, o beijo da dor. E neste imenso Brasil, um país continental, é preciso que beijemos mais através do amor dedicado a cada pequeno brasileiro que será o futuro. É preciso urgentemente  abrirmos os olhos para o que devasta o nosso país. Vamos olhar para o outro com amor,  quem sabe evitemos mais tragédias humanas, que corroem diariamente milhares de brasileiros.

Rozangela Allves