/“O Rio Grande do Sul está 50 anos atrasado na questão da dança” diz Petrillo.

“O Rio Grande do Sul está 50 anos atrasado na questão da dança” diz Petrillo.

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Cheio de vitalidade o porto-alegrense, bailarino, técnico em administração, produção e gestão cultural, coreógrafo, diretor e produtor cultural, atua na dança há 40 anos e passou 22 anos estudando e trabalhando na Argentina. Esteve pela primeira vez este ano participando do Bento em Dança como jurado. Ele dançou com grandes mestres, nacionais e internacionais e hoje assume papel importante na dança gaúcha, como presidente da ASGADAN- Associação Gaúcha de Dança.

Veja a entrevista completa de Rozangela Allves com Gilson Petrillo

Você  já esteve no Bento em Dança como bailarino?

Sim.  Estive uma vez, em 2012, quando dancei com o grupo Laboratório da Dança, com a direção de Isabel Willadino, no gênero Dança Contemporânea e fomos contemplados com o primeiro lugar  e também recebendo outro primeiro lugar com o Folclore de Projeção com a Escola Elizabeth Santos, ambas de Porto Alegre.

Como é estar participando da outra ponta como jurado?

Ver sobre este outro ângulo  e ter esta possibilidade de ajudar, foi muito importante. Pude observar e ter o contato direto com as bailarinas e bailarinos além de participar das aulas, isto me deu uma  grande proximidade com este público. Este intercâmbio é o que o profissional almeja, pois, eu vejo a dança como profissão que sempre foi mal cuidada.

 Como você percebe o Bento em Dança?

Este festival aqui no Rio Grande do Sul é uma porta aberta para a profissionalização, seja como bailarina (o) ou como coreografo (a). Ganhar o prêmio para colocar na estante é mais um estímulo para escolas para favorecer o seu aluno e trabalhos coreográficos.  Aqui existe, de fato, uma possibilidade de se profissionalizar. A dança permite inúmeras alternativas e um evento deste porte é possível perceber isto.

 Como está o Rio Grande do Sul em relação a Dança?

Esta enfrentando um momento de reviravolta de procedimentos  e repensar a dança como profissão. Estamos em um momento para dar um salto quântico, para criar uma arquitetura e uma engenharia cultural que proporcione o desenvolvimento da carreira. Não existem teatros apropriados para dança. O público não conhece então não sabe se gosta ou não. As cabeças estão muito presas nos procedimentos do século passado e a parte de execução da infraestrutura e políticas públicas para o setor ainda não está andando.

Como membro do Conselho de Cultura do estado o que estão fazendo para melhorar?

Os novos conselheiros que fazem parte da nova diretoria querem fazer valer o estatuto do Conselho de Cultura, pois é o órgão que define as  políticas públicas culturais do estado e precisa se valer disto. Avaliamos o que está acontecendo na cultura e chegamos à conclusão que estamos muito mal. Um exemplo fora da dança é que mapeamos 497cidades e destas somente 20% tem salas de cinema e em temos de teatro é praticamente nulo.  Precisamos nos valer da verdadeira política cultural.  Conforme o MINC a dança é a segunda maior economia entre as culturas a primeira é o artesanato, mas a devolução deste enorme aporte da economia criativa, não proporciona para as próximas gerações outro panorama profissional. 

Destaque três grandes mestres que você estudou?

No ballet Clássico Lenita Ruschel Pereira , no Jazz, Lennie Dale,  e no Modern  Jazz, Margarita Fernández.

Como se sente sendo júri ao lado da Margarita Fernández?

 Me sinto imensamente recompensado em poder compartilhar ideias, vivencias.  Estamos desenvolvendo um trabalho para reduzir a distância entre o Brasil e  a Argentina na questão da dança. Queremos caminhar a passos largos para que seja uma realidade.

Depois de 22  anos morando no exterior o que você encontrou na volta?

Depois deste período estudando e trabalhando profissionalmente com a dança na Argentina me sinto como ingressando  em uma bolha do tempo e retornando a 50 anos atrás, e ter que recomeçar do zero. Vejo que não existe nenhum caminho para o profissional da dança. É muito triste. Por isto me envolvi com os conselhos, com as entidades para auxiliar neste processo e para mudar este quadro caótico que estamos. Entrei na política mesmo que seja a contra gosto, mas percebi  que é uma forma de auxiliar as próximas gerações que virão por ai , e que possamos parar de exportar bailarinas (os) que atuam de forma profissional , para que  consigam ser profissionais, mesmo que seja uma utopia, quiçá traçar um caminho inverso. 

Foto: Acervo pessoal