/Para além do curto prazo, até quando o turismo de lazer deve continuar crescendo no Brasil?

Para além do curto prazo, até quando o turismo de lazer deve continuar crescendo no Brasil?

Quando perguntados se o turismo de lazer crescerá no Brasil no segundo semestre, gestores, investidores e consultores são quase unânimes em suas respostas: sim. E a justificativa está geralmente ancorada na demanda reprimida durante a pandemia, na expectativa de êxito da vacina contra a Covid, na desvalorização do Real e na substituição de viagens de brasileiros ao exterior por destinos domésticos.
Mas talvez a pergunta de 1 milhão de dólares seja outra: Para além do curto prazo, até quando o turismo de lazer deve continuar crescendo no Brasil?

Eu sigo acreditando em uma recuperação mais rápida do turismo de lazer no Brasil. E minha análise se fundamenta em 3 pontos principais:

  1. Até junho, a maior parte da população de risco estará vacinada, o que permitirá um descongestionamento do sistema de saúde emergencial no Brasil e uma reabertura econômica mais clara;
  2. No último trimestre de 2020, ainda sem vacina, o lazer reagiu bem. Em alguns meses, com a vacinação ganhando tração, o impulso na demanda de lazer deve ser ainda mais forte;
  3. Do ponto de vista econômico, ao menos até 2021, entendo que os efeitos da valorização do Real serão mais que suficientes para compensar qualquer perda de propensão a consumo turístico em razão da deterioração da economia no país.
    Em 2015 e 2016, o PIB encolheu mais de 6%, empregos e renda despencaram, mas o turismo de lazer cresceu, impulsionado pela então forte desvalorização do Real. Com menor ou maior intensidade, movimento semelhante deve ocorrer novamente no país.

Eu considero como oportunidade única para o segmento de lazer do país, levando em consideração fatores econômicos, o dólar alto e as restrições de viagens. e não tenho dúvidas. Inclusive para dar visibilidade a destinos que até então eram de pouco conhecimento para uma parcela significativa da população. E não me refiro apenas a regiões de difícil acesso e pouco desenvolvidas. Quantos brasileiros preferiam ir à Europa ou aos Estados Unidos antes de conhecer alguns dos principais destinos de lazer no Brasil? Com a desvalorização do Real, parte expressiva desse contingente passará a consumir viagens domésticas. E temos uma lição de casa importante para encantá-la e mostrar que no Brasil há muito o que se conhecer, independente da cotação cambial de nossa moeda.


Mas também acho importante nos fazermos outra pergunta: Caso realmente haja um boom de lazer, até quando durará?

E essa pergunta é muito mais difícil de se responder. Acredito que teremos parte de um segundo semestre com ocupações próximas aos limites permitidos e com diárias em crescimento, especialmente no último trimestre. Mas a manutenção desse processo dependerá não apenas do câmbio, mas principalmente da capacidade de reestruturação econômica do país. E aqui ainda temos muitas dúvidas e perguntas não respondidas. É o momento de construir novos empreendimentos? De vender ou comprar hotéis em operação? Depende da aposta que fazemos no futuro do país.

Nos últimos anos, tivemos algumas conquistas importantes para o turismo no Brasil, como a privatização e a modernização dos aeroportos, o aumento de oferta hoteleira independente e de fortes marcas nacionais e internacionais, além do maior poder de consumo e de propensão a viagens no Brasil. Como reflexo, demanda, gastos, empregos e tributos relacionados a turismo cresceram bastante no Brasil. No entanto, há muito o que se fazer pela frente. Em especial, para o aumento de competição e contínua queda de custos e preços no setor aéreo, de melhoria das estradas, de promoção de nossos destinos, qualificação da mão de obra, financiamento para novos negócios etc.. O que precisamos não é uma surpresa aos profissionais do setor. A dúvida é sobre como criarmos condições de retomar a trajetória de desenvolvimento do turismo nacional, com efeitos duradouros. E então voltamos mais uma vez ao futuro de nossa economia e das condições de estímulo ao setor que teremos pela frente.

Preocupo-me mais com a capacidade de organização político-econômica do país do que sobre a capacidade do turismo superar a pandemia.

7 indicadores que reforçam a crença em um turismo de lazer forte no pós-pandemia:

  1. Até 2019, brasileiros gastavam US$ 17,6 bi no exterior. São aproximadamente 100 bilhões de reais! Se apenas 5% desse valor for revertido para o turismo doméstico os efeitos em hotéis de lazer serão importantes.
  2. O total de viagens de brasileiros ao exterior era superior a 10 milhões ao ano. Além do dólar alto, restrições de viagens ao exterior induzirão nova demanda doméstica pelo país.
  3. Na última temporada de cruzeiros pré-Covid, o Brasil registrou mais de 450 mil viajantes. Enquanto o ambiente sanitário não se normalizar, viagens terrestres devem ser priorizadas.
  4. Até o início de 2021, ações de empresas como a Localiza bateram o recorde histórico. Valorização acima de 30% em comparação com o pico histórico pré-pandemia, em razão da força das viagens rodoviárias pelo país.
  5. As ações do Airbnb estrearam na Nasdaq com alta de 113%. Foi o maior IPO de 2020 nos EUA, respaldado na resiliência do turismo de lazer diante à pandemia.
  6. Segundo as projeções do Itaú BBA, o dólar deve permanecer acima de 5 reais até 2025. Após o controle da pandemia, as restrições financeiras a viagens internacionais permanecerão.
  7. O Brasil caminha para 1 milhão de doses da vacina para Covid aplicadas por dia. Com o aumento da vacinação, a abertura econômica e a volta às viagens devem ganhar força.

7 fatores que colocam em dúvida a força do lazer em médio prazo

  1. Crise política e incertezas econômicas. Além da má gestão da crise sanitária no Brasil, a fraca agenda de reformas e de ações pró-mercado diminuíram a confiança dos empresários no país.
  2. Expectativas de crescimento econômico beiram 2,5% a.a. até 2025. Sem reformas e diante de uma crise fiscal, investimentos, empregos e renda podem ser comprometidos no país.
  3. Risco sanitário ainda é alto. Novas variantes e incertezas sobre a eficácia da vacina em médio e longo prazos são riscos presentes em todo o mundo.
  4. Brasil é uma montanha russa. Quem ganhará as eleições em 2022? O ambiente de negócios será mais favorável? O país terá segurança jurídica?
  5. Tendência pré-crise de abertura de mercado e modernização do setor aéreo voltará quando? Quando as novas cias aéreas ampliarão a presença no país e pressionarão os preços para baixo?
  6. Teremos investimentos em infraestrutura? Os EUA aprovaram este ano um pacote de mais de US$ 2 trilhões para infraestrutura. E no Brasil, quando teremos melhores estradas, portos, além de aeroportos?
  7. Turismo será uma prioridade de governo? Investiremos mais e melhor e promoção? Formaremos bons profissionais? Investiremos em tecnologia?

E então, para além do curto prazo, até quando o turismo de lazer deve continuar crescendo no Brasil?

Pedro Cypriano
Managing partner at Hotelinvest

Especialista em gerenciamento, gestão de projetos, consultoria de negócios, Consultoria em finanças , estratégia de preço consultoria de marca para hotelaria.