/4 perguntas para Daniel Bertolucci

4 perguntas para Daniel Bertolucci

Daniel Bertolucci é Bacharel em Turismo, Produtor e Ativista Cultural e Sócio do Parque Olivas de Gramado.

1 – Qual a sensação da primeira colheita de olivas? Quais os tipos vocês produzem? 

A sensação da primeira colheita de azeitonas do parque Olivas de Gramado foi a de dever cumprido, foi a concretização de um sonho de produzir o primeiro azeite de oliva extravirgem da Serra Gaúcha. 

O resultado final foi o Blend Terroir Serrano, um azeite de oliva extravirgem multivarietal, com notas diferenciadas e com baixa acidez. Além do Terroir Serrano, desenvolvemos uma linha exclusiva de Infusões Aromáticas à base de azeite de oliva, com diversos sabores – inclusive alguns deles são próprios para a harmonização de pratos doces. Este ano, a grande novidade da nossa Boutique do Azeite é a Mundi Collection – desenvolvido pelo nosso azeitólogo André Bertolucci, onde 6 países são homenageados com azeites de oliva produzidos com insumos típicos destes locais. Além das nossas linhas de azeites especiais, dispomos do Painel dos Azeites Gaúchos, como forma de promover a produção do azeite de oliva do nosso estado.

2 – Quanto tempo vocês levaram desde o início da criação do Parque até a colheita? E neste tempo quais foram os principais desafios que vocês encontraram? 

Foi um trabalho árduo para concretizarmos o plantio das oliveiras: iniciou com a extração de Pinus Eliotti, quando tivemos de executar um grande plano de manejo visando a regeneração ambiental e recondicionamento do solo na área em que os pinheiros exóticos estavam plantados. Trouxemos especialistas da Europa para nos auxiliar no cultivo das oliveiras, e, após sete anos de espera, tivemos a imensa satisfação de produzir um azeite de oliva com identidade própria, o Blend Terroir Serrano – que está competindo em Premiações Internacionais de Azeite de Oliva. Atualmente temos cerca de 13.000 pés de oliveiras, de 6 variedades, e temos uma estimativa de crescimento gradual da safra conforme o desenvolvimento do olival.

3 – O Parque está em plena movimentação, isto demonstra que o Turismo Rural está em alta? O que você atribui a isto?

O Turismo Rural e o Ecoturismo já eram nichos que estavam em plena ascensão nos últimos anos. Com a pandemia, e as privações de passeio à que as pessoas tiveram de se submeter por questões de saúde causaram – ao meu ver -, uma mudança no mindset dos turistas e viajantes. Em nenhum outro momento da economia do turismo, os passeios a destinos ecológicos e que proporcionam experiência ao ar livre foram tão procurados e desejados. Inconscientemente, a natureza proporciona um sentimento de liberdade, o antônimo do provocado pela COVID-19. E estudos comprovam que o contato com a natureza promove o bem estar físico e mental – tão necessário neste momento de privações, medo e insegurança. Sem contar que faz bem para a alma passear em meio à natureza, provar pratos típicos coloniais, conhecer sobre a história, os costumes e tradições de uma cultura diferente do que estamos habituados. Esta riqueza cultural das colônias tem despertado cada vez mais o interesse dos visitantes, pois proporcionam momentos de simplicidade e autenticidade inesquecíveis, que não tem preço, mas muito valor. Eu acredito que esta tendência do ecoturismo e do turismo rural irá permanecer mesmo após o término da pandemia.

4 – O Parque foi criado para disseminar a cultura do Azeite e oferecer experiências em meio à natureza? Nos conte um pouco disto, bem como sobre a preservação da natureza.

O Olivas de Gramado é muito mais que apenas um negócio turístico. O parque tem vários propósitos lindos que, na minha opinião, são os principais motivos para o sucesso do empreendimento.

Um dos propósitos é o de disseminar a cultura do azeite de oliva no Brasil, pois é um produto nobre, extremamente benéfico para a saúde e que é ingrediente indispensável na gastronomia. Ficamos por muito tempo nos perguntando sobre o porquê dos nossos antepassados imigrantes italianos não terem trazido junto com eles a oliveira, assim como fizeram com a uva, o milho e outros. Na verdade, descobriu-se que eles trouxeram oliveiras, porém não dominavam técnicas de agronomia que permitisse a correção do solo para a acidez propícia e imprescindível para o cultivo das oliveiras. Agora, mais de um século depois, conseguimos realizar a proeza que nossos antepassados tentaram, mas não conseguiram fazer vingar.

Outro propósito do Olivas é o resgate da verdadeira identidade cultural de Gramado e região. Na nossa Trattoria, servimos pratos típicos coloniais, onde buscamos da minha nonna italiana e da minha ama alemã as nossas antigas e deliciosas receitas familiares. Percebemos que Gramado possui a gastronomia do mundo todo à disposição do turista, mas que a nossa comida autêntica, passada de geração para geração, ficava restrita aos almoços de domingo das famílias gramadenses. 

Então, resolvemos apresentar aos visitantes a comida que nossos avós preparavam, com insumos produzidos por pequenas agroindústrias do entorno, promovendo a economia solidária e gerando receita nas localidades rurais de Gramado e região. As saladas e legumes servidos no restaurante são produzidos na nossa Horta Orgânica, irrigada com água de vertente. As sobras do restaurante vão para a composteira, e após voltam para adubar o nosso olival, dentro de um ciclo sustentável. 

Além da comida típica dos imigrantes, temos o Tour Rural, um passeio de ônibus pela propriedade onde contamos sobre o início do povoamento na nossa região, visto que a Linha Nova, localidade onde está situado o parque, foi o Marco Zero de Gramado – o lugar onde Gramado nasceu. Temos muito orgulho de contar a história desta epopeia fantástica dos nossos antepassados imigrantes, de servir nossos pratos tradicionais, de proporcionar uma experiência sensorial do azeite ensinando o visitante sobre o uso deste produto excepcional. 

A questão ambiental é outro pilar da nossa missão, que é promover a conscientização ambiental dos visitantes. Temos trilhas ecológicas autoguiadas, com as árvores cotendo plaquinhas com informações, além dos painéis da fauna que habita a nossa “montanha mágica”. O Projeto Escola da Vida é voltado às escolas, e tem como objetivo proporcionar a fusão entre educação, entretenimento e meio ambiente, transformando o parque em uma grande sala de aula.

Mas acredito que o maior benefício que o Olivas de Gramado traz aos seus visitantes é o relaxamento, a conexão com a natureza, a memória afetiva despertada na visita à fazendinha ou fazendo um piquenique com a vista cinematográfica do canyon. A energia dos cristais de quartzo que permeiam o nosso solo servem como remédio minimizando os efeitos danosos da correria e do stress do cotidiano do meio urbano.

Outro efeito da pandemia que beneficiou o ecoturismo e o turismo rural, é que parece que a sensibilidade das pessoas foi aflorada. E quando isso ocorre, as pessoas costumam procurar a natureza e as colônias, que são o melhor refúgio para se reenergizar. 

Penso que cada vez mais as pessoas têm buscado locais arborizados, abertos e sem poluição, o que aqui no Olivas de Gramado chamamos de Academia da Alma.