/4 perguntas para Liliana Reid

4 perguntas para Liliana Reid

Liliana Reid é editora de três livros sobre Canela: Imagens de Canela, Uma História de Canela e Onde Tudo Começou – Almanaque da História e do Turismo de Canela. É formada em Comunicação Social pela Famecos – PUC, e ao longo de sua carreira especializou-se no setor de produção de eventos nacionais e internacionais e turismo.

1- Em tempos onde tudo é líquido seguindo a teoria do sociólogo Zygmunt Bauman por que optaram em fazer este resgate?

Bauman apregoa os tempos líquidos porque tudo muda rapidamente e nada é feito para durar, mas em se tratando de livros impressos em papel, só no Brasil vendeu mais de 100 mil exemplares e tem mais de 50 livros publicados em diversos idiomas. E não fossem os papiros encontrados pelos arqueólogos, nada saberíamos sobre os egípcios da antiguidade. Então, as coisas materiais e palpáveis, sem dúvida, seguem sendo importantes para preservar a história e a memória.

Onde Tudo Começou – Almanaque da História e do Turismo de Canela, para preservar a história e a memória do município.

2- O formato Almanaque remete há um passado nem tão distante assim. Qual a razão de editar esta rica história, neste formato? 

Coleciono Almanaques. Tenho exemplares raros de 1800 e do século passado, e acho que são uma maneira leve e divertida de conhecer a história popular de uma época. Não aquela história estudada por historiadores acadêmicos, que explicam em profundidade a política e a economia, que provocaram as grandes transformações do mundo, mas os costumes do dia a dia das pessoas, que retratam a forma como vestiam, os causos que contavam, a moral e os costumes que regiam uma comunidade.

E foi isso que fizemos no Almanaque da História e do Turismo de Canela, estabelecemos uma linha do tempo que inicia na época que os tropeiros passavam pela região, por volta de 1634 e vai até 2020. Assim, de maneira descomplicada, conseguimos entender o que estava acontecendo no Brasil e no mundo ao mesmo tempo em que a vida ia se desenrolando na região da Serra, onde Canela se desenvolvia como cidade.

1930 – Getúlio Vargas desembarca na estação de trem de Canela para inaugurar a primeira usina hidrelétrica da região.

3- Dentro da história de Canela o que te pareceu mais peculiar? 

O que mais me impressionou ao pesquisar os fatos para escrever o Almanaque foi reconhecer a importância do conhecimento e da cultura de homens e mulheres, obstinados por transformar os lugares por onde passam, em um lugar melhor para se viver. Na região do Caracol, em 1885, quando as terras de Canela, Gramado e São Francisco eram uma coisa só, por exemplo, havia um suíço chamado Theodor Amstad, que possuía uma imensa bagagem cultural e dedicou sua vida, enfrentando chuva, barro e frio, viajando milhares de quilômetros no lombo de uma mula – que era o único meio de transporte possível – para levar conforto espiritual às pessoas. Era conhecido como o Padre da Mulinha. Realizava casamentos e batizados para quem fosse, não importava a religião, ensinava sobre a importância da cooperação entre os moradores, e fundou a primeira cooperativa de crédito do Brasil, a Sicredi Pioneira, que continua em atividade até hoje. E como ele, muitos outros… Em 1914, um homem nascido no Reino da Baviera, Friedrich Gürsching, se estabeleceu com sua família no Caracol. Ele tinha curso superior em engenharia civil, formado em Munique. Veio movido por seu interesse em estradas de ferro e fez melhorias incríveis na região, onde ainda existe propriedades e familiares até os dias atuais. Sem falar em Guilherme Wasem e sua família, que literalmente se estabeleceu Onde Tudo Começou (por isso o Almanaque leva esse título), foi dono da Cascata do Caracol e seus arredores, que compreendem terra de Canela e Gramado, e seus descendentes praticamente povoaram a cidade, como é o caso da família Brocker, que ajudou a patrocinar o livro para que essas histórias não se perdessem.

1945 – Instalação do Município de Canela com a presença de autoridades em frente a Igreja Nossa Senhora de Lourdes.

4- O brasileiro lê, em média, cinco livros por ano, sendo aproximadamente 2,4 livros lidos apenas em parte e, 2,5, inteiros. Você acredita que uma leitura de resgate pode gerar interesse do leitor?

Acredito que esse tipo de leitura é atemporal. Não é livro para ser consumido, é livro para ser guardado, como um legado que passa de pais para filhos, com histórias de famílias, datas importantes, registros e fatos que devem ser lembrados para sempre.  Recomendo que tenham em casa pelo menos dois, um para guardar para os que vierem e um para ficar na mesa da sala para todos manusearem, pois não tem princípio nem fim. Em qualquer página que for aberta, encontra-se algo interessante.

Em abril de 1954, Canela inaugura o Palácio das Hortênsias com a presença do então Governador Ernesto Dorneles.