/4 Perguntas para Marcos Santuario

4 Perguntas para Marcos Santuario

Marcos Santuario é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival de Cinema de Gramado.

1- Ao completar 10 anos na curadoria, como você analisa o cinema brasileiro da última década?

O que posso dizer dessa década em que estamos trabalhando, desde o quadragésimo Festival de Cinema até hoje, é que há uma crescente produção, tanto em quantidade como em qualidade, do cinema brasileiro. A gente vem acompanhando isso no decorrer dos anos. Claro que, há 2 anos que a gente está tendo uma grande dificuldade em função da pandemia e isso vai se refletir figuradamente daqui pra frente. Então, o que eu percebo nessa década é que, se pode perceber também observando os filmes que foram apresentados em Gramado desde 2012 até o ano passado, é que são produções que mostram essa qualidade que já foi também reconhecida pelo mundo, nos festivais internacionais de Gramado, que é sempre sua premier brasileira. Eles já chegam também com esses aplausos e esses prêmios do exterior demonstrando que, não só o Brasil, mas o mundo está atento a essa produção brasileira, que tem crescido em qualidade e quantidade.

48º Festival de Cinema de Gramado 2020 – Fotos: Edison Vara/Agência Pressphoto

2- Considerando o formato adotado em 2020 e neste ano também, alguma coisa deste modelo híbrido irá continuar depois que o festival voltar a ser presencial?

Ano passado houve a necessidade de, criativamente, encontrar uma saída em função da impossibilidade dos encontros e das aglomerações, e foi uma saída criativa e ousada que a Gramadotur encontrou. E a gente acabou levando isso com muita firmeza e convicção, e deu tão certo que outros festivais começaram a trabalhar dessa forma. Sabendo que era uma fórmula que valia a pena, encontraram então uma possibilidade de manter o evento com a grandiosidade de Gramado, e ao mesmo tempo apropriar-se de possibilidades tecnológicas, no momento que era inesperado por todos. Foi realmente uma saída criativa e ousada, que naquele momento foi a saída. Agora a ideia é que esse modelo virtual, ou a utilização da tecnologia, a proporcionar os encontros virtuais e as remissões virtuais, seja uma possibilidade que possa ser usada, assim, no momento em que se achar pertinente, como uma soma ao processo presencial. Quer dizer, o festival ocorre presencialmente, esse é o desejo de todos, em que as pessoas estejam em Gramado, que seja um foco de encontro, centro de mobilização, de discussões, debate, que as pessoas queiram estar em Gramado, a partir também do festival que tem prestígio e apoio de Gramado. Mas ao mesmo tempo, que se possa chegar a outros lugares, a partir do evento virtual e  fazendo com que isso também seja um convite, uma motivação para as pessoas depois, venham estar em Gramado em outro momento. Então o virtual vai ser sempre uma possibilidade aliada ao evento presencial.

48º Festival de Cinema de Gramado 2020 – Fotos: Edison Vara/Agência Pressphoto

3- A pandemia influenciou em todos os setores, inclusive no cinema, portanto o que esperar da seleção de filmes levando em conta que são produções feitas durante esse período com dificuldades de produção, apoio, etc? Esse contexto está refletido nos filmes de alguma forma?

As produções deste ano, a maioria dos filmes já estavam prontos. A gente sabe que os filmes levam tempo, dentro de sua confecção até a pós-produção, a finalização, até estar pronto, empacotado para ser apresentado, então os filmes em sua maioria estavam prontos. Mas temos também, logicamente, filmes feitos na pandemia, quer dizer, com as dificuldades da pandemia. Volto a dizer que foram dificuldades que se tornaram possibilidades criativas, para que os diretores, atores e produtores, encontrassem especificamente nessa produção, o “filme da pandemia”, que vai ser apresentado também, porque ele foi feito durante a pandemia, aproveitando essa questão da obrigatoriedade do distanciamento, mas usando isso como uma força criativa. Então os demais filmes eram filmes prontos, não aquilo de gente usando máscara, mas são filmes que já estavam no processo de finalização, processos exteriores. Claro que talvez a maior dificuldade que se enfrentou no ano passado, e neste ano, tenha sido as relações com as estratégias de distribuição do filme, porque nem todos os filmes estão dispostos a não estrear numa tela grande de cinema. Então houve situações, seguramente, que não aconteceriam se não houvesse a pandemia, no sentido de filmes que estão se guardando ainda para quando acaba essa pandemia, o cinema ganhar força, para eles poderem estar na tela grande. Mas, em geral, os filmes estavam prontos e nós então só tivemos que ir atrás de alguns filmes que sabíamos que existiam, que no final das contas estão tendo essa parceria importante, que é um momento também de mostrar essa resistência de cultura e do cinema brasileiro, como todas as dificuldades, incluindo também o cinema estrangeiro, que se faz presente, que viveu e vive essa mesma situação que as produções nacionais em tempos de pandemia.

48º Festival de Cinema de Gramado 2020 – Fotos: Edison Vara/Agência Pressphoto

4- Ano que vem o festival faz 50 anos. O que esperar do evento na sua 50ª edição?

A partir dos filmes desse ano, que vão estar na 49ª edição do Festival, podemos ter uma ideia de diversidade criativa e narrativa. A gente tem diretores novos, atores consagrados e filmes que vão dialogar, sobretudo nesse universo que a gente se propõe nestes últimos 10 anos. Em todas curadorias que passaram, a gente sempre se propôs trazer filmes capazes de dialogar com o público, com a crítica, com o universo cinematográfico, com a distribuição do cinema, e também, logicamente, com a ideia do Festival de Cinema de Gramado como um encontro, um evento que é amparado pela ideia de fomentar o turismo, mas, ao mesmo tempo, acaba sendo nesses 49 anos uma força do cinema nacional. Então, é de se esperar mesmo que nos 50 anos, que faça algo como aconteceu aos 40, quer dizer, foi um momento de transformação, de apontar novos caminhos, apontar para o futuro. E o futuro está aí, ele é tecnológico, ele é de novos formatos, um futuro que apresenta novas possibilidades e novos desafios, quanto a produção, a distribuição, a exibição e o consumo dos produtos audiovisuais, unindo o cinema. Fico muito feliz de saber que a Gramadotur já está atenta a tudo isso, e já nos convidou para seguir trabalhando com esse olhar inovador para aquilo que tem que ser transformado, mas ao mesmo tempo, conservador para aquilo que está dando certo e tem que ser mantido. Vida longa ao cinema como um todo. Vida longa ao cinema estrangeiro e ao cinema brasileiro. Vida longa ao Festival de Cinema de Gramado.