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As cidades e todas as suas formas

Como pesquisadora da temática da comunicação no turismo, sou frequentemente estimulada a pensar as cidades como articuladoras do nosso imaginário e a compreendê-las como um organismo vivo, composto de estímulos voluntários e involuntários que norteiam as nossas reações. Como um corpo humano, segundo Rocca (2018), a cidade deve estar em pleno funcionamento, nutrindo sua população e os viajantes.

Essa nutrição age através das arquiteturas, dos muros pichados, da gastronomia, dos parques e do modo de viver das pessoas, o que faz com que as cidades sejam detentoras de identidade e de representações. Quando penso em minha cidade, Pelotas, lembro do centro histórico, dos casarões, dos doces, do “merece”, da hospitalidade transmitida e da tranquilidade da laguna, o famoso Laranjal. A cidade representa minha casa, minha tribo, o sentimento de pertencimento, e é parte de mim como a minha aura; assim, desejo, como nativa, que os viajantes possam absorver tais sensações. 

Esse estímulo é fomentado, de acordo com Rocca (2018), por se tratar de uma “geosociologia” que promove sentidos ao destino através das manifestações coletivas e dos espaços. Logo, quando penso em minha terra natal, a significo como uma relação familiar, terna e de aconchego, principalmente quando lembro de minha infância. 

Da mesma forma, quando os viajantes a visitarem, serão estimulados a todo o momento a possuírem reações de encantamento e sedução, seja por intermédio dos nativos, seja pela cultura de hospitalidade que pertence à prática do turismo. Os hábitos de tomar chimarrão em frente às casas a tardinha e de ir ao quadrado a procura de reflexões, ou as charqueadas para emergir na história, ou, ainda, ao Laranjal para matear e fazer compras no calçadão, degustando os famosos doces pelotenses, serão experienciados pelo viajante que procura a calmaria e a qualidade de vida do interior. 

Quando cheguei a Porto Alegre, a cidade me representava dois mundos: um de estranhamento cultural e outro que me transmitia novos desafios, experiências e a ansiedade de descobrir o novo. Nesse ponto, entendemos que o intercâmbio cultural, ao propor a experiência, torna-se essencial e parte da formação humana.  

Ao andar pelas ruas da capital, havia um incentivo envolto a um elo de interesse e atração: as novidades de uma capital, as atrações turísticas, os espaços de entretenimento, as tecnologias e as pessoas articulavam a magia de um novo cenário, de uma nova vida. Como viajante, não me sentia parte da cidade, pois a história era dos nativos, e cada reestruturação urbana era uma conquista deles. Hoje posso dizer que sou a eterna viajante sendo surpreendida diariamente por Porto Alegre, que revela, em suas ruas, características e monumentos, a capital dos gaúchos.  

Da mesma forma acontece ao viajarmos para outros destinos: agimos de acordo com a representatividade daquela cidade, seu contexto, criação e história, visto que são esses os motivos que produzem e atribuem significados e que transitam na dimensão do imaginário. Emergimos na cultura daquele destino analisando, conhecendo e experimentando, queremos ser parte daquele lugar, conhecer o que os nativos desejam nos mostrar e muito mais. Somos seres de comunidades e subculturas. Precisamos vivenciar o intercâmbio multicultural. 

À procura de prazer e excitação, o viajante busca novas sensações e, com isso, promove o rompimento do seu cotidiano. Para Rocca (2018), ao optar por uma cidade, o viajante organiza automaticamente as informações que relacionam aos desejos da viagem. Assim, é projetada uma imagem mental, baseada também nas narrativas de viagem e do destino, com todas as especificações que irá encontrar e o que poderá vivenciar. 

Ao viajar para a serra, por exemplo, são inúmeros disparadores para o encantamento: a arquitetura, a estética, a culinária, as atrações e os produtos turísticos propõem estimular as emoções e, ao mesmo tempo, os viajantes possuem a certeza de que o destino provocará as melhores experiências. Essas cidades foram projetadas para criar essas sensações e disparar encantamentos, e a intensidade sentida pelo viajante é narrada para estimular outros viajantes. Essa articulação é realizada através do produto do imaginário, que aciona aspectos emocionais e cognitivos. (VITACA, 2021). 

Como comunicóloga, adoro escutar as narrativas de viagem de alguém, porque há várias reações: os olhos brilham, os sorrisos se fundem no rosto e é possível absorver as sensações. Os relatos são fomentadores e articuladores para conhecer um destino turístico, pois, quando narro como foi a minha experiência, a cidade me pertence de forma simbólica, geográfica e imaginária; logo, possuo propriedade sobre ela. As dimensões do real e do imaginário interagem, dinamizando sua identidade. Por isso, posso dizer que há um grande enamoro entre as cidades e os viajantes. 

Para Maffesoli (2001), a aura que citei acima é parte dos destinos e é responsável por criar vínculos, sentidos às experiências e significações para os cotidianos. Dessa forma, evidencio o termo viajante híbrido, uma vez que, quando retornamos às nossas vidas após a experiência turística, não somos mais quem éramos: nossas ações, percepções e escolhas sofreram interferências, promovendo o entrelace da própria cultura com outra. Logo, afirmo que somos modificados pela prática turística, nos construindo como produtores de sentidos e representações, dinamizando imagens de destinos sob a nossa perceptiva e promovendo diversas sensações através de narrativas de viagem que irão dinamizar e propagar as imagens dos destinos, propondo a outros viajantes experiências baseadas naquelas já vividas. 

MAFFESOLI, Michel. Sobre o nomadismo.Rio de Janeiro: Record, 2001. 

ROCCA, Fabio La. A cidade em todas as suas formas. 1. ed. Porto Alegre: Sulina, 2018. 

VITACA, R. M. Paola. As narrativas de viagem nos canais do YouTube: o olhar da comunicação na transmissão das experiências turísticas para a dinamização dos imaginários das cidades. 2021. 245f. Dissertação (Mestrado em Comunicação Social) – Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social, Escola de Comunicação, Artes e Design, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2021.

Paola Marie Vitaca é publicitária, mestre em Comunicação Social e profissional de Marketing.
Com formação na Graduação em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda pela Universidade Católica de Pelotas (2010). Possui titulação na Pós-Graduação nível mestrado em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2021) e Especialização a nível MBA em Marketing Digital, Global e de Relacionamento (UniBF, 2020). Com experiência nas áreas do Turismo e Comunicação trabalhou-se com os estudos do imaginário, a percepção da experiência turística, as estruturas das narrativas e o papel social da interatividade na realidade. Em relação ao cenário mercadológico, atuou através do Marketing Estratégico, Digital e do Design. Atualmente, enfatiza a produção acadêmica, pesquisa e participa de vários eventos da área, propondo as diversas reflexões sobre o homem e a sociedade.

*Os autores dos artigos, vídeos e podcasts assumem inteira responsabilidade pelo conteúdo de sua autoria. A opinião destes não necessariamente expressa a linha editorial da Melhor do Sul.