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Cultura é a base da economia de Gramado

Proponho um exercício de observação empírica a partir de agora. Pare o que você está fazendo e, por dez segundos perceba o quanto de cultura está a sua volta. Observe a televisão, a música, a gastronomia. Perceba o idioma, a língua, a fala. Note o livro, o fazer, o estudo. Entenda que a cultura está em todas as partes e que, dela, servem-se não só o sedento, mas também o já saciado. Ela é caminho inerente até ao ser humano menos adepto às artes, por exemplo.

Popular, liberal, neoliberal, belas artes, cidadã, simbólica… seja como for, a cultura está arraigada no organismo social cotidiano e dele não se dissipa. Mesmo que sofra, volta e meia, uma espúria pressão social, combativa, obsoleta e ingênua, ela permanece contribuindo, regando as flores, muitas vezes murchas, do saber humano. E aqui em Gramado, mais do que tudo isso, é riqueza.

Qualquer grande evento realizado na cidade baseia-se rigorosamente em cultura: Festa da Colônia, Festival de Cinema, Festival de Cultura e Gastronomia, Páscoa em Gramado, Natal Luz, são os simbólicos exemplos. Retire de qualquer um deles suas atividades culturais. O que sobra?

A resposta é óbvia, mas precisa ser dita de igual forma: sobra nada. Sobra um aglomerado de coisas sem contexto, conceito e coração. Sobram objetos sem vida, porque do mecanismo humano, não se separa a sensibilidade cultural.

Fica claro enxergar, portanto, que é da cultura a missão de gerar receitas a Gramado e subsidiar aquilo que o turismo traz consigo, que trata do encantamento, da paixão por um destino, do desbunde ante a uma novidade. Até o clássico respeito à faixa de segurança em Gramado é obra da cultura.

Do musical à decoração, da ópera a céu aberto a um festival que exalta a beleza da sétima arte. Da gastronomia à música, da colonização ao chocolate artesanal: tudo é arte, tudo é cultura. Cabe, então, por parte de nós, gestores públicos, um olhar carinhoso, sensível e promissor sobre tal constatação.

Se fala muito sobre a economia criativa e sua influência na retomada econômica assim que a pandemia amainar seus efeitos sanitários. Trata-se como essencial o processo criativo, que dissocia o ser humano de robôs, para reduzir o impacto causado pela recessão. E é exatamente por isso que eu acredito num clamoroso recomeço em Gramado. Acredito, porque como todo romântico, aposto e confio no poder intelectual.

Para isso, entretanto, é preciso que percebamos que já faz muito que Gramado desenvolveu a economia criativa como uma de suas bases econômicas, mesmo que o processo tenha sido involuntário (e eu acho que não foi). Vem da arte muitas de nossas divisas e é dela que emanará a força para essa retomada. Cabe, então, organização, zelo, arrojo e planejamento para confirmar esse potencial e demonstrar o poder de transformação de uma cidade que vive de ser humano. Veja bem, não vive “do” ser humano, e sim “de” ser humano, porque vive daquilo que dele emana e manifesta.

Enquanto maior responsável por um dos dois órgãos gestores públicos da cultura de Gramado, entendo que uma das mais latentes e fundamentais funções é justamente organizar e instituir um ecossistema de economia criativa baseado em cultura. É trabalhar a capacitação e o planejamento para que tenhamos ainda mais organização e democracia nas escolhas e ofereçamos condições paritárias a todos os agentes culturais. É preciso que entendamos que a corrida precisa começar do mesmo ponto e, a partir dele, é que se dará a igualdade na busca dos resultados.

O alicerce será implantado, o ecossistema surgirá, sustentável, democrático e transformador. Essa é uma das metas da Secretaria da Cultura de Gramado, e o que está escrito, para quem, como eu, ama os livros e as letras, é sagrado.

Ricardo Bertolucci Reginato
Secretário da Cultura de Gramado