/Distribuição do turismo doméstico: modelo inadequado e ultrapassado

Distribuição do turismo doméstico: modelo inadequado e ultrapassado

O modelo utilizado para a distribuição do turismo nacional é inadequado, ultrapassado e vem comprometendo a competitividade do setor. É hora de mudança!

Para a correta abordagem do tema é importante que seja desmembrada a temática da distribuição doméstica, das questões inerentes a distribuição internacional, do turismo brasileiro.

Este talvez seja já o primeiro apontamento a ser destacado na reflexão deste artigo. A separação das temáticas desnudará o turismo doméstico, evidenciando os seus problemas e potenciais soluções.  

Nos últimos 22 anos me dediquei, em tempo integral, no estudo dos problemas que vem atravancando o desenvolvimento e o fortalecimento do turismo nacional bem como, na busca de soluções, especialmente de base tecnológica, que possam ampliar a competitividade, de forma integrada, de toda a cadeia produtiva do turismo nacional.

Esses estudos, aliados a uma intensa jornada empreendedora como fundador e coordenador nacional do e-Marketplace Cooperativado do Turismo Brasileiro, fornecem subsídios, tanto para a reflexão que aqui nos propomos sob a ótica da provocação lançada de que a atual matriz de distribuição do turismo doméstico é inadequada e está ultrapassada deixando, portanto, de ser remédio, para ser algo nocivo à saúde do nosso turismo doméstico; quanto, para sinalizar um caminho novo que possa preparar o nosso turismo doméstico – empresas e destinos – para os desafios da competitividade desses novos tempos, inclusive de recuperação pós pandemia.  

Portanto, o tratamento desta ferida mal curada é condição “sine qua non” para a saúde e renovação do vigor deste corpo vivo que é o nosso turismo doméstico.

Algumas das referências, dentre muitas outras, que poderiam ser trazidas a tona, são:

  • A principal inadequação está no fato de o modelo de distribuição estar ancorado fortemente no B2B e em apenas 3 canais: GDSs, OTAs e Operadoras;
  • Este modelo é caro. É insustentável. Aos olhos das novas alternativas de mercado, pode ser classificado como perdulário, tanto para os pequenos, quanto para os grandes empreendimentos do setor. Além do fato de requerer ferramentas intermediárias de apoio que os tornam ainda mais inviáveis;
  • A sobrevivência deste modelo de distribuição é dependente de intensiva e permanente captação de capital financeiro, tanto para tecnologia, quanto para aquisição de tráfego e financiamento da operação comercial propriamente dita; num momento em que a taxa Celic deve encerrar 2021 ultrapassando a casa de 10% e, o ano de 2022, com a previsão de passar dos 12%;
  • O modelo de negócio é sustentado numa competição predatória e dependente de fortes barreiras de entrada, para a sua sobrevivência;
  • O modelo não é apropriado para a distribuição do turismo doméstico por ter sido ele originalmente concebido para a distribuição internacional do turismo;
  • O atual modelo não tem compromisso com o fomento do setor, a melhora da rentabilidade dos produtores, bem como, nenhum compromisso com a arrecadação tributária (ISS Turismo) dos destinos;
  • O modelo atual de distribuição corre à margem das novas tendências dos negócios, especialmente daqueles que fundamentam, na web, o universo da economia da colaboração e do consumo compartilhado. 

O que se percebe é que o mundo mudou. A forma de fazer negócios se transformou. As relações de consumo mudaram radicalmente. O cliente já não é mais o mesmo. As tecnologias se converteram em comodities acessíveis a todos, em condições de uso em qualquer momento da operação comercial, esteja a empresa ou o empreendedor onde estiver.

No entanto, o turismo nacional vem se comportando igual a um obeso mórbido que, por questões óbvias, passa por uma cirurgia bariátrica, porém continua com a cabeça de obeso.

O mindset do turismo nacional ainda não mudou. A mente do setor ainda não processou as profundas transformações ocorridas no mercado (no seu organismo) nos últimos anos; continua com o mindset de obeso.

Despertado da sedação que o fez suportar o trauma do período “cirúrgico” da pandemia, só lhe vem à mente… R E T O M A R!  Sim. Foco total na “retomada do turismo”. Ávido em “fazer acontecer…”; em aproveitar o momento que “todos querem viajar…”; pois “ninguém mais aguenta ficar em casa”, esquece ele de ajustar também a sua mente ao seu novo organismo pós-cirúrgico. Os danos desta inconsciência da nova realidade são imprevisíveis, podendo até levá-lo à morte. 

Guerra de preços; exploração do turista; volume, ao invés de qualidade de vendas; produto certo, porém canais inadequados; medo da formalidade; negócio offline; aversão à colaboração e formas de negócios coletivos; produto sim, destino não; dependência e submissão do turismo ao setor público são apenas algumas formas de ver e pensar que ainda perduram no mindset do obeso do turismo nacional.     

Reinventar-se ou, ainda com maior assertividade – agir sob a ótica de um renascimento, ajustando-se à nova realidade do seu organismo, da nova realidade dos negócios, nem passa pela sua mente ainda de obeso.

Neste sentido, sentencia o observador e visionário, também conhecido como o pai da administração moderna, Peter Drucker: “o maior perigo em tempo de turbulências, não é a turbulência em si, mas agir com a lógica do passado”.

É inconteste que está nas mãos do setor produtivo do turismo nacional ousar e ter coragem de inovar, apostando todas as suas fichas na solução de uma equação ainda não resolvida fazendo de uma nova matriz B2B2C, não mais somente boa para ciclano ou beltrano, mas sim, melhor para todos: produtores, varejistas, destinos e os viajantes e turistas.   

Quais são então as referências de uma matriz adequada para as necessidades da distribuição do turismo doméstico nesses novos tempos?

  1. O novo modelo de distribuição deve estar ancorado no binômio: TECNOLOGIA & MODELO DE NEGÓCIO pois, de nada adianta uma moderna ferramenta tecnológica conduzindo um modelo de negócio inadequado ou ultrapassado;
  2. O modelo deve possibilitar a formação de uma rede autônoma em que todos – produtores, varejistas e destinos – sejam hubs do turismo nacional, cooperada e descentralizada, na Internet;
  3. Este novo modelo de negócio, ancorado na tecnologia, deve ir muito além da simples distribuição – deve contemplar desde a produção e a gestão dos produtos, quanto a distribuição, promoção e a sua comercialização;
  4. Este novo modelo precisa assegurar dentre os seus princípios fundadores: a participação universal, tanto de produtores quanto de varejistas; a equidade nas condições de acesso à infraestrutura disponibilizada aos seus integrantes e, a paridade, na remuneração dos canais de venda;
  5. Ainda, deve assegurar gratuidade à toda a cadeia produtiva no uso permanente da infraestrutura tecnológica, sem perder de vista a autossustentabilidade – ou seja: garantir independência financeira da atividade na gestão, produção, promoção, distribuição e comercialização dos produtos e serviços do turismo, de todos os destinos brasileiros;

O turismo doméstico precisa acordar pois, querendo ou não, já está na era da adaptabilidade, da escalabilidade, da replicabilidade, da inovação, da tecnológica, de prateleiras infinitas, do cliente e empresas omnichannel. Na era da economia colaborativa, do consumo compartilhado e de organizações exponenciais.

Racionalizar despesas e investimento, bem como, potencializar negócios e aumentar as receitas, tanto para as empresas, quanto para os governos é o mantra deste novo tempo que se inicia pós pandemia.

Fazer uso deste novo mindset e tirar proveito em favor do fortalecimento dos negócios e do desenvolvimento dos destinos, bem como, do turismo nacional é uma questão de sobrevivência.

Que saibamos todos aproveitar este período de interrupção para construção de um caminho novo. A hora é agora!

Vadis da Silva é CEO da Gestour Brasil, fundador e coordenador nacional do e-Marketplace Cooperativado do Turismo Brasileiro www.gestour.com.br , uma rede colaborativa na web formada por 6.860 lojas virtuais de destinos e empresas com o objetivo de produção, gestão, distribuição, promoção e comercialização de produtos e serviços do turismo dos destinos brasileiros, de forma autônoma e integrada.  

*Os autores dos artigos, vídeos e podcasts assumem inteira responsabilidade pelo conteúdo de sua autoria. A opinião destes não necessariamente expressa a linha editorial da Melhor do Sul.