/O turismo além dos destinos: a prática vista como estratégia comunicacional

O turismo além dos destinos: a prática vista como estratégia comunicacional

Vivemos em um mundo de aproximadamente 7,8 bilhões de habitantes, dentre estes, são colaboradores inseridos no mercado de trabalho, cumprindo a sua jornada dia após dia, fazendo parte da grande engrenagem da vida. São mulheres e homens que movimentam diversos setores dinamizando produtos, marcas e serviços, conduzindo e propagando padrões de comportamentos e de concepções. Com esse movimento, a globalização gera economias e fortalece as potências.
A cada dia, pessoas vivem suas jornadas, sonham, desejam e consomem. A cada hora, pessoas conquistam, mudam percursos da sua vida e, a cada minuto, recém-nascidos chegam com propósitos, potencialidades e dons, carregando consigo a necessidade humana de se expressar: a comunicação. Portanto, todos os dias, formam-se famílias, pessoas constituem papéis sociais e promovem a alteridade entre elas, proporcionando vivências por intermédio das representações.

Para o autor Goffman (2002), vivemos na sociedade da eterna constituição, divulgação e propagação coletiva (influências), cultural e de estímulos sob as lentes do imaginário social, ou seja, vivemos na sociedade das aparências. Procuramos pertencer à teia simbólica “do em comum” (redes sociais), que, para o teórico Maffesoli (2001), as comunidades são construídas a partir de objetivos particulares similares, os quais propõem a junção das pessoas que compartilham das mesmas percepções e ideais constituindo os movimentos sociais.

É pensando na complexidade do mundo, na comunicação entre as pessoas, nos estímulos influenciados pelas estruturas biopsíquicas, meio cósmico e social (Durand, 2012), que o mundo produz sentido e faz história. Ao pensarmos em nosso cotidiano, observamos que as experiências e lembranças auxiliam na construção do sujeito, pois somos compostos de significados, os quais produzem as simbologias, as interpretações diante das situações e a forma sedutora como narramos e divulgamos.

Assim, os sujeitos experimentam, sorriem, interagem, amam e se relacionam, constituindo a sua vida diante da compreensão que cada dia é singular, o que levaremos de forma intensa poderá ser materializada em forma de relatos. Eis a sociedade do real e irreal, do consumo e das estratégias comunicacionais e virais.

Vamos falar da prática do encantamento?
Com este pensamento, que o turismo atua como ferramenta estratégica comunicacional, há mais que vivenciar os destinos, os viajantes atribuem significados à experiência e a entendem como mágica, sedutora e pertencente ao intercâmbio cultural, que é percebido como vital para a humanidade.

Diante da aquisição da experiência turística, o viajante se percebe envolto a aspectos cognitivos, estabelecidos entre a satisfação e o encantamento, os quais evidenciam sensações referentes à necessidade, ao desejo e ao querer. Ao entender que o consumo faz parte das nossas vidas, o turismo se fortalece na perspectiva da transmutação em que o viajante se torna o protagonista da sua jornada e o detentor do discurso narrativo.

À medida que a experiência se torna intensa, os estados emocionais avaliam que tipo de vivência o viajante está tendo e, se for positiva, a emoção atingirá o encantamento. Seguindo o entendimento que os destinos arquitetam e planejam atratividades para dinamizar e propagar sua prática, compreende-se que é através das plataformas midiáticas que as narrativas criam articulações por meio de influenciadores, os quais geram e potencializam desejos e encantamentos.  

Ao pensarmos que a virtualidade compõe o processo de ressignificação das informações, ou seja, o que foi transmitido já foi interpretado e ressignificado, se leva em consideração que os destinos não apenas encantam por suas belezas, e sim por uma arquitetura planejada e uma comunicação articulada. Neste sentido, o que Goffman aponta sobre a constituição dos papéis faz sentido quando o influenciador age através das plataformas digitais, vestindo a roupagem de guia ou de referência sobre o destino turístico.

Desta forma, se estabelece uma relação intensa entre o destino, viajante e influenciador. Assim, nas plataformas digitais, os seguidores irão optar por assuntos de comum interesse, estando imersivos ao mundo digital, imaginal e das narrativas (curtindo, compartilhando e interagindo), e, igualmente, pelo influenciador que detém de estratégias e articulações midiáticas. Sendo assim, relacionamos as perspectivas de Michel Maffesoli sobre a cola da pós-modernidade (grupos de interesses) e as interpolações que remetem às dimensões do real e do irreal de Gilbert Durand.

Desta forma, o turismo atua na complexidade e subjetividade do viajante, dentre as interações comunicacionais, desafia-se a estimular fatores psicológicos e cognitivos que atribuem significações à experiência turística e, com isso, transmitem o quanto é singular as vivências. Sendo assim, é através do turismo, da comunicação, da virtualidade, dos fenômenos midiáticos que desencadeiam processos, que acionam a memória e, por consequência, projetam as narrativas de encantamento, as quais relatam enquadramentos e emoções sob a ótica do viajante, seguindo a lógica do consumo e das marcas mencionadas pelos influenciadores e destinos.

Como vimos, o turismo não significa apenas o lazer, ele vai além. É a estratégia de encantamento que produz o desejo e a magia, dinamizando imagens de destinos e estimulando o viajante ao consumo.

Referências:
DURAND, Gilbert. As estruturas antropológicas do imaginário. 4. ed. São Paulo: Martins, Fontes, 2012.
GOFFMAN, Erving. A representação do eu na vida cotidiana. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2002.

MAFFESOLI, Michel. Sobre o nomadismo. Rio de janeiro: Record, 2001.

 

Paola Marie Vitaca é publicitária, mestre em Comunicação Social e profissional de Marketing.
Com formação na Graduação em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda pela Universidade Católica de Pelotas (2010). Possui titulação na Pós-Graduação nível mestrado em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2021) e Especialização a nível MBA em Marketing Digital, Global e de Relacionamento (UniBF, 2020). Com experiência nas áreas do Turismo e Comunicação trabalhou-se com os estudos do imaginário, a percepção da experiência turística, as estruturas das narrativas e o papel social da interatividade na realidade. Em relação ao cenário mercadológico, atuou através do Marketing Estratégico, Digital e do Design. Atualmente, enfatiza a produção acadêmica, pesquisa e participa de vários eventos da área, propondo as diversas reflexões sobre o homem e a sociedade.

*Os autores dos artigos, vídeos e podcasts assumem inteira responsabilidade pelo conteúdo de sua autoria. A opinião destes não necessariamente expressa a linha editorial da Melhor do Sul.