/Turismo Regenerativo, um entendimento equilibrado entre Turismo e Meio Ambiente

Turismo Regenerativo, um entendimento equilibrado entre Turismo e Meio Ambiente

Turismo e Meio Ambiente, temas ricos e complexos, uma vez que para um turismo de qualidade necessitamos de um meio ambiente de qualidade. É uma relação de interdependência que ocupa mais espaço em discussões ao redor do mundo, na atualidade.

O turismo é considerado uma indústria bilionária no mundo e foi colocada em xeque no ano de 2020 pela pandemia covid-19. Mas antes de ser uma “indústria” é um fenômeno social, como apresentado pela professora Margarita Barreto, “Turismo é movimento de pessoas, é um fenômeno que envolve, antes de mais nada, gente. É um ramo das ciências sociais e não das ciências econômicas, e transcende a esfera das meras relações da balança comercial”.  Muitos estudiosos colocam o turismo como uma “indústria de base comunitária”, uma vez que os recursos para o seu desenvolvimento pertencem a uma comunidade. Já o meio ambiente, pode ter entendimentos diferentes e múltiplos conceitos, porém meio ambiente é um resultado da interação dos ecossistemas naturais com sistemas sociais, ou seja, compreende o meio ambiente natural que são recursos naturais como solo, água, ar, fauna, flora e o meio ambiente artificial que são as edificações, equipamentos e alterações produzidas pelo homem além do patrimônio cultural material e imaterial.

A pandemia trouxe a tona antigos debates sobre a sustentabilidade do turismo, a necessidade de discutir a sua resiliência como já há muito é questionada por países como Austrália, Nova Zelândia e pela Comunidade Europeia, estratégias que envolvem estudos multidisciplinares que versam sobre uma “ética do cuidado” que envolve “pessoas, planeta e prosperidade”, tendo como perspectiva atender as necessidades atuais e das futuras gerações. Em suma é sobre isto que se trata a sustentabilidade.

O zelo com o meio ambiente é uma responsabilidade para o desenvolvimento turístico e também é a garantia do seu sucesso. Atualmente para a retomada do turismo, muitas alternativas foram buscadas, para que as experiências se tornassem possíveis, surgiram novas denominações e antigas se tornaram atuais como o turismo responsável, consciente, suave, lento ou humano. Roteiros buscando oferecer contato com a natureza de forma segura despertando para a consciência e responsabilidade começaram a ser inseridos nos mais diversos destinos, e trazendo consigo um questionamento, se é possível viajar de outra forma causando menos danos ao meio ambiente? Uma vez que vivemos em um planeta de recursos finitos e limitados. O que é muito claro, que quando feito de forma ordenada e responsável, a viagem não só “não prejudica” mas pode ativamente regenerar e revitalizar o meio ambiente e produzir resultados positivos para as comunidades.

Organizações não governamentais se uniram para formar a Future of Tourism Coalition, a Coalizão do Futuro do Turismo. Sob a orientação do Global Sustainable Tourism Council, o órgão publicou uma lista de 13 princípios que buscam orientar a indústria do turismo global para uma posição mais regenerativa, dentre esses princípios estão: “exigir uma distribuição justa da renda”, “escolher a qualidade em vez da quantidade”. Segundo Jeremy Sampson, presidente da Future of Tourism Coalition, “Quando o turismo agrega valor a um destino, melhorando a qualidade de vida dos residentes e a saúde de ecossistema, ele pode ser considerado regenerativo”. (Conheça os princípios em https://www.futureoftourism.org/guiding-principles).

Sabemos, através de estudos sérios que são realizados há décadas, o quanto o turismo pode colaborar para o bem-estar humano, tanto físico como mental e na atualidade é uma importante contribuição para os seres humanos. Tendo como referência o ambiente natural, cada vez mais estudos apontam que a experiência na natureza está associada ao bem-estar psicológico, como: aumento do afeto positivo, felicidade e bem-estar subjetivo, interações sociais positivas, coesão e engajamento, senso de significado e propósito de vida, melhor gerenciamento das tarefas da vida, diminui o sofrimento mental como afetos negativos, pode afetar positivamente vários aspectos da função cognitiva, memória e atenção e inibição de impulso e desempenho escolar das crianças, assim como a imaginação e a criatividade. (“Natureandmentalhealth: Anecosystemserviceperspective”, ScienceAdvance, 2019)

Dr.David Strayer da Universidade de Utah, defende que estar na natureza restaura os circuitos de atenção esgotados. Sugere que após três dias estando na natureza, sem qualquer tecnologia, os benefícios são crescentes e podem promover: memória de curto prazo aprimorada, capacidade otimizada de resolução de problemas, maior criatividade, baixos níveis de estresse e maior bem-estar positivo. Percebe a natureza como uma ferramenta restauradora potente.

Poderia citar tantos outros, mas o importante é que se estes estudos já eram priorizados antes do período da pandemia. Vemos uma situação ainda maior à procura do turismo junto à natureza, onde as pessoas se sentem mais seguras, podendo respeitar os distanciamentos que fazem parte dos protocolos do novo turismo e usufruindo de certa liberdade, uma vez que se mantiveram em sua residência.

Como então trabalhar a questão econômica que a atividade do turismo proporciona respeitando a questão social, da convivência da sociedade receptiva com os turistas e ainda com a utilização do ambiente exuberante, que deve ser preservado? Na minha opinião, a solução é o planejamento sustentável sob enfoque multidisciplinar.

A finalidade do planejamento turístico consiste em ordenar as ações do homem sobre o território e ocupa-se em direcionar a construção de equipamentos e facilidades de forma adequada evitando, dessa forma, os efeitos negativos nos recursos, que os destroem ou reduzem a atratividade.

Estamos vendo, no mundo, espaços com recursos de belezas consideráveis sendo literalmente invadidos por turistas ávidos para usufruir seu tempo livre da forma mais gratificante possível, sem considerar os riscos que sua presença (em massa) e seu comportamento individualista trazem, não só para os recursos naturais mas para as populações nativas e para o patrimônio histórico-cultural. Por isso, o planejamento é fundamental e indispensável para o desenvolvimento turístico equilibrado e em harmonia com os recursos físicos, culturais e sociais das regiões receptoras, evitando assim, que o turismo destrua as bases que o fazem existir. 

Nos 30 anos que atuei em várias entidades, conselhos, tanto a nível municipal, regional e nacional, ligados ao Turismo, ao Meio Ambiente e ao Planejamento Urbano, mais de 95% do tempo foram dedicados à condução mercadológica, ao marketing, a estudos pontuais de interpretação da legislação. E acredito que o falta é a dedicação nestes grupos de trabalho, que na sua maioria são voluntários, um tempo para o planejamento da cidade e da região conjuntamente, do crescimento sustentável, onde contemple a questão econômica, mas também as questões sociais e ambientais.

É trabalhar o Turismo Regenerativo com diálogos transversais, multidisciplinares, que a complexidade do tema exige, pois soluções rápidas nos trazem resultados superficiais que não atendem as nossas necessidades e podem comprometer a continuidade do Turismo.

Artigo de Ricardo Metz: Consultor em Turismo e Associativismo, com formação em Engenharia Mecânica pela UFRGS, Guia especializado em Atrativos Naturais pela UCS, é sócio proprietário do Parque das Sequoias.

Desde 1992 em Canela, fez parte de diversas diretorias da ACIC, sendo presidente dos Conselhos Executivo e Deliberativo, hoje participa do Conselho Superior da ACIC. No município, fez parte dos Conselhos de Turismo, de Meio Ambiente e do Plano Diretor. Na região, participou da Câmara de Indústria e Comércio da Região das Hortênsias e do Convention e Visitors Bureau. Um dos fundadores do Instituto Brasileiro de Ecoturismo e da Associação da Rota Romântica.